Ana Biselli é publicitária, Rodrigo Junqueira é economista. Juntos embarcaram na grande e inesquecível aventura de viajar durante mil dias pela América, explorando o continente de norte a sul, de leste a oeste. Além da paixão por viagens, o casal divide o prazer de compartilhar suas aventuras no site 1000dias.com.

Os mil dias estão chegando ao fim” e Ana e Rodrigo escreveram sobre no seu site no facebook:

“Frio na barriga! Assim começa nossa última semana desses 1000dias de quase 1500, dessa longa viagem pelas Américas, do Alaska à Patagônia, da Islândia ao Havaí. Tão longe estivemos de casa e agora está logo ali. Um ciclo se fecha, um futuro desconhecido se abre. Para onde vamos? Frio na barriga… Mas, enquanto o futuro não chega, vamos tratar de aproveitar a semana que começa. Uma semana infinita enquanto dure, que vai terminar no lugar mais especial na nossa história, onde nos conhecemos, nos casamos, idealizamos esses 1000dias e nos lançamos ao mar. Para nós, a América começa e acaba na Ilha do Mel. Uma feliz semana para todos os amigos, a primeira do resto das nossas vidas! Por isso, o frio na barriga!”
Nós tivemos o prazer de entrevista-los ano passado quando nos contaram sobre essa viagem incrível de 1000 e tantos dias!
 

A ideia de fazer a viagem surgiu de um sonho que Ana e Rodrigo já alimentavam há tempos: conhecer cada lugar, cada canto da Terra.

Antes de se conhecerem haviam viajado para diferentes lugares. Rodrigo já somava 40 países e Ana 21. Porém, foi em uma madrugada estressante, em Porto Alegre, que Ana ligou para o Rodrigo em Curitiba e disse: “Basta! Vamos tirar umas férias, pegar o carro e viajar!”  E as férias tornaram-se uma viagem de carro por todo o Brasil. Estava criado o embrião do projeto 1000 dias. Durante quase dois anos, o plano foi ampliado para uma viagem pela América e mil dias lhes pareceu um número bem redondo.

O trocado para bancar a viagem
Ana e Rodrigo financiaram a viagem com as suas próprias economias. Deixaram, por exemplo, de comprar o tão sonhado apartamento para realizar essa aventura.

Muitos nos perguntam se somos ricos ou se ganhamos na mega-sena e a resposta é outra pergunta: qual é a sua prioridade? Você tem uma casa ou um carro? Venda e vá viajar, se esse é o seu sonho., diz Ana.

Durante o planejamento do 1000 dias, encontraram alguns parceiros que os acompanharam neste projeto, apoiando com equipamentos e divulgação.

A viagem deveria durar exatos mil dias. De 28 de março de 2010 a 12 de dezembro de 2012, o dia do fim do mundo, segundo o calendário Maya. Ana comenta: “Se o mundo acabasse mesmo, teríamos passado os melhores mil dias do final de nossas vidas e sem precisar pagar as contas do cartão de crédito. O mundo não acabou e a viagem também não. Hoje já passamos dos planejados mil dias. No caminho, aprendemos com outros viajantes que uma viagem destas deve ter uma data de início, mas não de fim e que o principal é podermos nos adaptar e aproveitar as oportunidades que temos. Hoje a previsão de término é o início de 2014, afinal dinheiro ainda não cresce em árvore e outras grandes aventuras nos aguardam.”

Planejamento de viagem
Ana conta que o planejamento da viagem deu-lhes um caminho macro, como por  exemplo, os países por onde passaríam e o tempo médio em cada um deles. Porém, o roteiro detalhado, é totalmente espontâneo. Alguns locais eles já sabem de antemão que querem conhecer, mas completa dizendo que também descobriram muitos lugares lindos e que nem imaginavam existir, seguindo dicas de amigos que fizeram durante a viagem.


Não existe viagem sem “perrengues”

A maior dificuldade da viagem que os dois enfrentatam foi o trecho de 200 km entre Alto Parnaíba, no sul do Maranhão, e a cidade de São Félix do Jalapão, em que a estrada aparecia nos mapas, GPS e até nas informações cedidas pelos moradores da região, mas desaparecia em meio ao deserto, chapadas e cerrado.Ana e Rodrigo estavam preparados para fazer o percurso em oito horas. Sem água e sem comida, levaram dois dias inteiros para conseguir cruzar de uma cidade à outra. Apesar das dificuldades, a publicitária comenta a experiência com animação:

“A maravilha é que descobrimos pessoas muito boas nesse caminho. Gente simples, que não mediu esforços para dividir conosco seu prato de arroz com abóbora e um teto de palha para dormirmos. Foi uma noite inesquecível de muito aprendizado e risadas sob a luz de velas e com uma boa cachaça.”

Como fazer malas para uma viagem de mais de mil dias
“Com um carro para carregar tudo (ou quase tudo) o que você quer, eu diria que fazer malas não foi um dos grandes conhecimentos que ganhamos nestes mil dias! Em tanto tempo de viagem, tivemos que estar preparados para todos os tipos de clima: frio, calor, praia, montanha, neve e chuva. Basicamente o que fizemos foi ter uma mala de inverno e uma mala de verão, que mesclamos conforme mudamos de estação”, diz Ana.

Com o tempo, os dois ficaram craques em minimizar a parte mais chata de uma viagem: fazer e desfazer malas. Eles mantêm sempre uma mochila com o básico pronto: necessaire, roupas íntimas e uma camiseta limpa. Se ficam apenas um dia em um lugar, utilizam somente a mochila.

Preferem mala ou mochilão?
Ana responde sem hesitar: “O nosso primeiro ano foi com um mochilão até que cansei de fazer e desfazer o tempo todo, já que para tirar uma camiseta eu tinha que desmontar toda a estrutura da mochila. Assim, decidimos por mala para o dia a dia no carro e mochilão para visitar as ilhas no Caribe, por exemplo, e qualquer trekking de montanha.”
 

O indispensável para se levar do Brasil
“Acho que o jeitinho brasileiro não pode faltar”, comenta Ana, e completa: “Não para levar vantagem, mas para se adaptar aos imprevistos que aparecerem. Nada, mas nada, pode te desanimar e fazer querer desistir do seu sonho. Estar aberto a novas soluções o tempo todo trará uma perspectiva diferente de vida e uma nova experiência de viagem.”

Segundo ela, é indispensável levar alguns pares de havaianas, pois as sandálias são muito caras no exterior e, podem soltar as tirar com o tempo.

Hospedagem: o simples nem sempre é a pior opção
“Já dormimos no carro, campings, redes penduradas nos barcos amazônicos e onde mais você imaginar! A pior hospedagem que tivemos foi em uma cidade nas Reentrâncias Maranhenses, na noite em que aguardávamos carona no barco dos pescadores para a Ilha de Lençóis. Tudo era muito sujo, muito mofado, mas era a única da cidade. Quando chegamos na ilha, ficamos na casa de uma família que é toda feita de palha, paredes, teto e janelas, chão de areia, perfeito para a ilha, fresco e o melhor de tudo, limpíssimo! Moral da história, o simples nem sempre é a pior opção.”

Encontrando famosos
No Deserto do Atacama, Ana e Rodrigo encontraram Glória Maria gravando um Globo Repórter, o primeiro desde que ela assumiu o lugar de Sérgio Chapelin. “Simpaticíssima, ficou muito curiosa com a nossa viagem e fez questão de nos incluir na matéria. Tivemos nossos 30 segundos de fama.”, brinca Ana. Em Memphis, Estados Unidos, na fila para visitar a Mansão de Elvis Presley, encontraram o ator Ethan Hawke e sua filha com a atriz Uma Thurman, mas preferiram não incomodar o artista.

 

Chorar é inevitável
Ana conta que eles choraram de emoção em várias situações, como quando chegaram ao cúme de uma montanha acima dos 5.800 metros pela primeira vez, quando fizeram carinho em uma baleia cinza na Baía Califórnia, ou quando nadaram ao lado de um tubarão-baleia em Galápagos. Entre as lembranças mais marcantes, estão outras duas situaçães: uma delas foi quando sobrevoaram a Groelândia. As imagem que eles tinham do Ártico finalmente se tornaram realidade.

“Um continente gelado com  desertos de gelo e icebergs maravilhosos e que sabemos que com o tempo irá desaparecer. As lágrimas foram instantâneas e naturais. Demorei um tempo para entender porque estava chorando. Logo toda aquela beleza não estará mais alí. Isso é muito triste.”

Para completar, diz: “Outro momento em que chorei de desespero, foi quando a minha sobrinha nasceu. Era um misto de emoção, alegria e tristeza por não estar lá! A minha primeira sobrinha, a primeira neta dos meus pais, filha da minha irmã caçula. Já havíamos planejado estar em Curitiba para este momento, mas a pequena Luiza resolveu se adiantar, justamente quando estávamos dois dias sem comunicação. A parte mais difícil em uma viagem como esta é estar longe das pessoas que amamos, o resto tiramos de letra.”

Planos para depois da viagem
Depois de viajar por mais de mil dias por todos os países da América, Ana e Rodrigo querem, segundo eles, começar  uma das aventuras mais incríveis de suas vidas: ter filhos. Eles planejam voltar a trabalhar nas suas respectivas profissões e paralelamente dar continuidade ao projeto 1000 dias. Também pretendem escrever um livro, algum dia, para compartilhar o grande acervo de conhecimentos adquiridos nesses anos de viagem.

“Nós sentimos a necessidade de vivenciar o mundo lá fora para assim aprender a valorizar ainda mais os pequenos momentos do dia a dia. Voltaremos à nossa rotina, mas, aos poucos, buscaremos estrutura para voltar para a estrada, porque também não somos de ferro.” 
Temos certeza de que essa não será a última viagem do casal.


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