Texto: Liliana Tinoco Bäckert  Foto: Donatas Dabravolskas

Voltar à minha cidade depois de quatro anos me trouxe vários questionamentos e algumas constatações. Eu já pensava no assunto antes de ir e me intrigava como seria o meu reencontro com o Rio de Janeiro depois de tanto tempo. Nunca tinha ficado tão distante das minhas raízes. Cheguei a imaginar que eu me sentiria deslocada, amedrontada com a violência, que quatro semanas era tempo demais para férias… Tive medo de um choque cultural, da tão falada síndrome do retorno, que acomete muitos que regressam depois de uma longa estada fora do país. Mas nenhum dos meus temores realmente aconteceu. Voltar foi e acredito que continuará sendo um bálsamo para a alma. Em primeiro lugar, porque o Rio é um colírio para quaisquer olhos, mesmo com todos os problemas. Entre outras razões, retornar significa reencontro. Nesse caso, comigo mesma e com pessoas que ajudaram a escrever quem eu sou, quem fui e quem quero me tornar. Significa, entre tantas outras coisas, um espelho na sua frente, um cara a cara com você mesma. Me lembrei do quanto nós, brasileiros, gostamos de conversar com desconhecidos na rua, da importância do contato olho no olho, da música, da reunião de família, das recordações de infância ao avistar determinados lugares.

Nesse ambiente de reflexão e nostalgia, me chamou a atenção o desemprego, que assola o país e em especial a cidade carioca. Vi amigos queridos e desconhecidos desempregados. Todos os motoristas de taxi tinham sido demitidos. Presenciei inúmeros moradores de rua, constatação confirmada pela imprensa. Eu, que adoro teatro, fui informada que diversas salas haviam sido fechadas. Nem mesmo os cadernos de cultura dos jornais traziam mais diariamente a programação – deve ser redução de custo. Os restaurantes e bares da orla, cheios no passado, já não lotavam mais. Em conversas informais com garçons, todos confirmavam a derrocada: o movimento caiu cerca de 40%. Pairava no ar um quê de derrota.

E foi nesse momento que questionei a tão aclamada alegria de viver do carioca. Onde estava? O paradoxo é o suíço ser eleito o povo mais feliz do mundo naquelas pesquisas que medem felicidade. Quem vive aqui ou já passou perto, sabe que alegria contagiante não é o forte nesse país. Presenciei, ao mesmo tempo, manifestações de satisfação genuína, gente fazendo festa na rua. Os tiroteios eram diários, mas os bailes e as rodas de samba também – os eventos culturais seguem seu fluxo, assim como a vida. E aí talvez esteja o segredo ou o óbvio, o viver carioca reflete contentamento, mesmo que a vida esteja cercada de tantos problemas. Aliás, felicidade é palavra que nem se pronuncia no país, o negócio é baseado “no levanta, sacode a poeira e dê a volta por cima”.

O contato com a realidade difícil dos conterrâneos me remeteu aos tempos em que morava na cidade e vivia preocupada com a possibilidade de demissão devido à crise, o perigo de parar o carro num sinal vermelho ou de deixar a bolsa no banco do carona e sofrer um assalto no trânsito. Pensei nas dificuldades que enfrentamos todos: quando estamos no país, sofremos pela instabilidade econômica; mas se emigramos, desfrutamos da tão sonhada segurança, mas provavelmente bebemos do preconceito de sermos estrangeiro, da solidão, da desconexão cultural.

Tive quase quatro semanas para refletir sobre essas idiossincrasias. Deixei o Brasil com mais dúvidas que certezas. Mas saí com um sentimento bom, sensação de pertencimento, encontro com o meu lugar e entendimento de vários atos de meu comportamento. Eu sou tudo o que deixei por lá, mas também o que me tornei na Suíça. Detalhes de nós mesmos que só percebemos quando tomamos devida distância.