Texto: Lila Rosana  |  Ilustração: Stasia Burrigton
 
Relacionamento Multicultural

Estatísticas comprovam o crescente número de uniões entre pessoas de diversas nacionalidades. Casais binacionais mundo afora contam como estão lidando com as diferenças culturais.

Para o amor não existem fronteiras, já dizia ditado, o que faz muito sentido se olharmos ao nosso redor e percebermos o grande número de uniões entre casais de diferentes culturas e nacionalidades. Hoje em dia esse tipo de relacionamento tornou-se mais comum do que imaginamos, basta conferir as estatísticas. Em países como a Alemanha, por exemplo, 1,4 milhão de pessoas mantêm um relacionamento amoroso com um estrangeiro, segundo o Departamento Federal de Estatísticas do país. O Brasil não fica atrás. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), somente em 2009 5.339 brasileiras casaram-se com homens de diferentes nacionalidades.  No mesmo ano, 1.712 homens brasileiros uniram-se a estrangeiras.

Lidando com as diferenças
Muitos casais bilíngues precisam lidar com fortes aspectos culturais que permeiam a relação. Algumas brasileiras casadas com estrangeiros relatam que é muito difícil, porque existem grandes diferenças culturais, o que desgasta um pouco a relação. Valores, percepções e comportamentos também são diferentes. “Relacionar-se com um homem da mesma cultura já não é simples, imagine de outra”, comentam.A jovem brasileira Ricarda* chegou à seguinte conclusão: “Eu já me relacionei com mexicanos, canadenses e norte-americanos. Não é uma tarefa fácil, pois o choque cultural é complicado. Para mim, o mais difícil foi a demonstração afetiva deles. Nós brasileiros temos o carinho de pai, mãe e irmãos desde sempre. A família norte-americana tem outro padrão de afeto. Nós gostamos muito de abraçar e beijar. Somos assim com os familiares, amigos e namorados. Eles não abraçam nem beijam com frequência e não têm o ‘cuidar do outro’ que a gente tem”.

O amor é a ponta do iceberg
O amor é o começo de tudo, depois alguns desafios precisam ser superados. Muitos casais mudam seus conceitos sobre os papéis tradicionais do homem e da mulher na sociedade e dentro de um relacionamento para que sua relação dê certo. A cultura asiática, por exemplo, onde a mulher tem papel passivo na sociedade, entra em contradição com o papel feminino em países como o Canadá, a Alemanha e a Suiça. Quando os casais são oriundos de diferentes culturas, tendem a encontrar um desafio a mais pela frente. Quem vai mudar ou ajustar o quê em seus valores e conceitos pré-estabelecidos?

Casar-se com uma pessoa de cultura e nacionalidade diferentes e imaginar que em nada será preciso mudar, é um dos primeiros enganos entre esse tipo de casal. Um outro comum equívoco é ter a forte crença de que você mudará o parceiro(a) e o fará ser do jeitinho que você quer e gosta. As coisas nem sempre são tão simples quanto parecem. Como poderíamos mudar conceitos culturais arraigados?

Para John,* um canadense casado com uma brasileira, deparar-se com a flexibilidade de horário dos brasileiros virou um grande problema entre o casal. Foi preciso muito jeitinho brasileiro dela para contornar as situações provenientes dos costumeiros atrasos: “Meu marido canadense acha uma falta de respeito ter que esperar pelo outro em situações de atraso. Ele espera pacientemente apenas em casos de urgência. Para ele, o atraso constante em diferentes situações é um aspecto bem difícil para a convivência com os brasileiros”.

Diferenças à mesa

A diferença de hábitos à mesa, ou gosto culinário também podem ser um momento conflitante entre casais, ou não. Tudo vai depender do quanto você está preparado para lidar com a situação. O problema foi resolvido de maneira prática pela brasileira Valéria*: “Ele teve que se adaptar ao meu cardápio, porque eu não achei uma comida típica canadense que pudesse fazer, então só faço comida brasileira e ele passou a gostar”.

Para Joana,* casada com um alemão, foi difícil lidar com as maneiras à mesa de seu amado. No primeiro encontro, ela se assustou com ele iniciando a refeição sem esperar por ela. Sentiu-se agredida e desrespeitada, porém quando entendeu que na cultura do amado isso é perfeitamente normal e comum, ela relaxou e não tomou a atitude como pessoal. “É preciso conhecer os costumes e hábitos de quem você escolheu para parceiro, caso contrário a relação tende  a declinar” – ressalta Joana*.

E o humor, onde fica?
Casais bilíngues tem um desafio a mais pela frente: Aprender a apreciar o humor do parceiro. As piadas, trocadilhos, brincadeiras e eufemismos, assim como as formas de ironia, fazem parte da vida de um casal. Uma conversa cheia de humor é agente de ligação, ajuda a criar intimidade e a lidar com o estresse. Acostumar-se com o humor do outro pode levar um tempo e exigir um pequeno esforço para identificar o que é uma piada e uma descontração de palavras irônicas ou sarcásticas.

Mesmo diante das aparentes e reais diferenças, muitas brasileiras ainda preferem envolver-se com homens de outra nacionalidade. Essa intenção fica clara na fala de Verônica*, também casada com um canadense: “Se por acaso eu viesse a casar novamente, escolheria um estrangeiro. Pois os homens brasileiros com quem me relacionei eram muito mimados e cheios de preconceitos. Os canadenses são mais práticos e levam a relação mais a sério”.

Tirando de letra
Se, para alguns, um relacionamento binacional pode ser muito trabalhoso, para aqueles que foram criados ou conviveram em ambientes internacionais, os desafios desse tipo de união são tirados de letra. Em geral, para quem está acostumado a viajar mundo afora, conhecer e namorar pessoas de culturas diferentes passa a ser algo excitante e natural.

Foi o que aconteceu com Anabela*, casada com um escocês: “As dificuldades que encontramos no início do relacionamento foram atribuídas à adaptação de rotinas e costumes diferentes entre duas pessoas, o que é natural entre qualquer casal, mesmo os de semelhante nacionalidade. A língua ou diferença cultural foram atenuadas pelo fato de eu já ter morado no país dele por dez anos e me familiarizado com a cultura local”.

Saber a maneira como cada um foi educado e que tipo de infância tiveram vai ajudar bastante em todo o processo. Para a brasileira Felícia* a convivência é fundamental. “Mesmo com todas as diferenças culturais e linguísticas, eu ainda acredito que apenas o dia a dia mostrará se vale a pena ou não investir em uma relação a longo prazo e isso independe de nacionalidade”. 
Para quem tem interesse ou está começando a se envolver com pessoas de diferentes culturas, fica a dica: Busquem compreender os provérbios, o senso de humor e interesses um do outro. Isso é fundamental para um relacionamento de sucesso. Desenvolver o interesse pela cultura e hábitos de cada um, sem perder de vista os seus próprios, também é muito importante.

*Para preservar a identidade dos entrevistados, todos os nomes apresentados nos depoimentos desta matéria são fictícios.


Lila Rosana nasceu em Belém do Pará, onde formou-se em psicologia clínica e organizacional. Morou por 11 anos em Fortaleza, no Ceará. Tem especializações em educação infantil, ludoterapia e estresse pós-traumático.  Atualmente vive em Vancouver, no Canadá. Ela escreve no blog pessoal Conversando com os pais ,que surgiu do trabalho de orientação de pais que fazia no Brasil, e para o jornal online Tribuna do Ceará. 

lila-conversandocomospais.blogspot.com  www.tribunadoceara.com.br/blogs/lila-rosana