Terra da batata

Nas minhas primeiras férias do lado de cá, quando eu ainda nem pensava em me mudar, resolvi dizer para o meu marido, na época namorado, que queria experimentar pratos típicos. O que aconteceu foi que provei vários tipos de salsichas e cortes diversos de carne de porco, sempre acompanhados de alguma preparação de batata. Um dia tive que perguntar:
– Por que afinal de contas se come tanta batata por aqui? Não escapa nem um diazinho para o arroz?

Foi então que ele me contou sobre o Fritz.
Lá pelos anos 1700 a população alemã sofria com os invernos rigorosos e quase não tinha o que comer, já que o plantio de grãos  não vingava no clima austero. As mortes por fome eram muitas e foi então que o rei Frederico II, conhecido popularmente por Fritz, decidiu distribuir a batata e instruções de plantio para os agricultores. Na época, a iguaria havia chegado à Europa trazida pelos espanhóis da América do Sul,  mais exatamente da Cordilheira dos Andes. Reza a lenda que no começo a planta da batata era usada apenas como decoração, porque dá flores lindas. Somente com a crise e a escassez de recursos é que os europeus decidiram experimentá-la.
Mas os agricultores da Alemanha não receberam a novidade muito bem. Provaram a batata e acharam-na pouco saborosa, recusando-se assim a iniciar seu cultivo. O rei então lançou mão de uma estratégia que mudou para sempre a relação dos alemães com o tubérculo. Ele ordenou a seus soldados que passassem a vigiar sua plantação. O fato chamou a atenção dos agricultores, que julgaram a batata algo de extremo valor. Na calada da noite, então, eles começaram a furtar a plantação do rei. Claro que as ordens eram de que os soldados não reagissem. A ação, associada às campanhas do rei de que batata era consumida pela nobreza, fez com que os agricultores e o povo acreditassem que se tratava verdadeiramente de uma iguaria.
Daí para a frente surgiram mais e mais receitas deliciosas e a Alemanha ficou conhecida como terra da batata. Uma preparação inclusive é bem famosa no sul do Brasil, para onde as famílias alemães migraram nos anos 1800: É a salada de batata, tradicionalmente feita com maionese, mas que possui versão mais leve somente com vinagre azeite e salsinha.
Ah, agora também me lembrei que tem uma cidade de colonização alemã, lá no Rio Grande do Sul, minha terra, que realiza anualmente a Kartoffelfest (Festa da Batata). Neste dia, em Santa Maria do Herval, pode-se provar de tudo: pão de batata, doce de batata, sopa de batata, bolo de batata… e é tudo uma delícia!
Com tudo isso, só me resta dizer uma coisa: Aplausos para o Fritz!
Perguntamos aos brasileiros mundo afora como é a relação deles com a culinária do novo país. Dá uma olhada no que descobrimos:
“Tem muita coisa na culinária inglesa que é estranha para mim. Comer bacon, ovo, cogumelo, salsicha, tomate e feijão no café da manhã, por exemplo. Mas tem algo que gosto muito para acompanhar o meu café da tarde: é um doce chamado Scones. Uma mistura de biscoito com pão, que servem com geléia e um creme tipo nata. É delicioso.”
Kellen Venske, natural de Blumenau, mora atualmente em Londres, Inglaterra.
“Sou apaixonada pelo chicken biryiani, que é um arroz com frango bem temperado à base de manteiga. O prato come-se juntamente com o roti ou o naan, pães indianos, e o paneer masala, que é um queijo tipo ricota acompanhado de um molho temperado.”
Anelise Cornely, natural de Porto Alegre, morou três anos e meio na Índia.
“Há muita comida exótica, saborosa e estranha por aqui. Devido as minhas alergias, não como frutos do mar, carne de porco e comida apimentada, ítens básicos da culinária de Cingapura. Minha comida favorita é o chicken rice, frango com arroz. Comidas que os locais amam são o Chili Crab e uma fruta de sabor e gosto estranho chamada Durian. Cozinhar em Cingapura custa caro, muito mais do que se comer fora, afinal tudo por aqui é produto de importação.”
Juliana Cristine, natural de Curitiba, mora atualmente em Cingapura.
 
Beijo e até a próxima!
Vanessa 
 

Vanessa Bueno é jornalista e expatriada. Mora na Alemanha há um ano e escreve sobre a vida Do lado de cá, ou seja, de fora do Brasil. A ideia é gerar debates sobre as diversas situações que permeiam a vida de brasileiros mundo afora. Falaremos por aqui, por exemplo, de trabalho no exterior, dificuldades com a língua, diferenças à mesa, criação dos filhos, e tudo o mais que surgir, sempre com a participação especial de nossos leitores.