Foto de Claudia Pegoraro – Felipe o pequeno viajante

“Aprendi há muito tempo que, quando somos o gigantesco visitante de fora numa remota cultura estrangeira, faz parte do serviço virar motivo de ridículo. Na verdade, como hóspedes bem-educados, é o mínimo que podemos fazer”. O trecho do livro Comprometida, de Liz Gilbert, expressa bem o meu sentimento em relação ao aprendizado de uma nova língua em um país estrangeiro. Moro há dois anos na Alemanha e, ainda hoje, as pessoas riem do meu sotaque. Mas não é deboche, elas acham “bonitinho”. Não é uma situação muito agradável, porque às vezes o assunto é bem sério e o que recebo de volta é uma gargalhada. O jeito é rir junto!

Conheci por aqui japoneses, coreanos e muita gente de países árabes. E quando vejo essas pessoas tendo que aprender um novo alfabeto, penso que ainda estou no lucro. Alemão é um idioma difícil, todos sabemos, mas tem suas facilidades. Tem uma lógica interessante na construção das palavras,que me agrada muito. Luva, por exemplo, chama-se Handschuh, o que, numa tradução literal para o português seria, “sapato de mão”. Algumas especialidades médicas são bem fáceis de entender também. Ginecologista chama-se Frauenarzt, que significa médico de mulheres, pediatra é Kinderarzt, “médico de crianças”, e por aí vai.

Há algumas coisas engraçadas também. Por exemplo, a palavra “virgem” em alemão significa “mulher jovem”, o que poderia ser questionado nos dias de hoje. O problema começa quando se juntam três ou mais palavras para se dizer algo, porque palavra composta não existe aqui. Elas simplesmente se grudam e, só em alguns casos, recebem um “s” auxiliar. Um exemplo: Geburt (nascimento), Tag (dia), Geburtstag (aniversário, ou dia do nascimento, numa tradução literal). E dá para juntar uma terceira palavra ainda: Geburtstagskind (Geburt=nascimento, Tag=dia, Kind=criança), ou seja, aniversariante.

A minha teoria é que, como aqui é muito frio, os alemães não tinham muito o que fazer nos invernos
rigorosos e resolveram criar umas regrinhas de gramática e ortografia para deixar o idioma mais “atraente”, ou afastar os estrangeiros, vai saber. A primeira coisa que realmente não consigo entender e que me irrita até são os números ditos ao contrário. Como assim? Ao invés de dizer “oitenta e três”, os alemães pronunciam três e oitenta. Imagina isso no supermercado agora, quando os números são ditos rapidamente pelas meninas do caixa e ainda acompanhados dos centavos. Simplesmente impossível de entender. Eu olho direto para a máquina registradora. Ainda bem que ela existe. O segundo item da lista de coisas irritantes são os verbos que se separam. Sim, os prefixos vão parar no fim da frase. Agora até que me acostumei, mas no começo sempre perdia o prefixo no meio do caminho. E a terceira coisa que também incomoda bastante é o artigo neutro. Além dos artigos “o” e “a”, masculino e feminino, existe o artigo neutro. E não há lógica nenhuma que explique porque é neutro, feminino ou masculino. Se bem que no português também não existe, né? Por que dizemos “a árvore” e não “o árvore”? Tentar achar essa reciprocidade no alemão, então, não funciona.

Resumindo: Todos os estrangeiros, e arrisco a dizer que até alguns alemães, erram o uso do artigo uma vez ou outra, ou muitas. Aprender um novo idioma é meio como voltar a ser criança, se observarmos. A ideia inicial é garantir as necessidades básicas. Conseguir se locomover, comprar comida, ir ao médico… Já faço tudo isso sozinha, mesmo pagando alguns micos. Acho que estou no estágio adolescente da minha relação com o idioma. Não é fácil, há dias em que dá vontade de atirar tudo para cima, comprar um passagem só de ida para o Brasil e voltar para a minha vida profissional com o meu português querido. Nesses momentos, respiro fundo e sigo me dedicando com afinco a essa língua totalmente nova. Não me contenta saber o básico, usar verbos no infinitivo e cometer erros de gramática, com o intuito único de me fazer entender. Quero mais. Quero ter livre arbítrio para decidir que caminho profissional seguir, sem limitações com a língua. Isso significa que ainda tenho um longo caminho a percorrer, mas vamos em frente. Sem esquecer, claro, que faz parte do serviço ser motivo de ridículo!

Perguntamos aos brasileiros mundo afora sobre suas experiências com novos idiomas. Deem uma olhada no que descobrimos:

“Para mim, esse é o assunto mais complexo do processo de mudar de país. Fiz um curso de alemão
durante um ano, mas já constatei que é muito pouco. É desesperador não entender as pessoas e os
filmes por exemplo. Procuro assistir televisão, pois exibem filmes simples, com muito romantismo e
final feliz, nada muito complicado. O fato de falar inglês, neste caso, atrapalha porque acabamos
falando em inglês quando o assunto é mais sério.” Ana Teresa Schwarz, natural de São Paulo, capital, vive na Alemanha há dois anos.

“Eu nunca imaginei que um dia poderia me comunicar em quatro idiomas: português, inglês, espanhol e finlandês. Estudei inglês ainda na adolescência, mas nunca levei a sério. Foi somente quando casei e mudei para o México que comecei a fazer uso do inglês. Paralelamente aprendi o espanhol que, ao contrário do que muitos dizem, não é tão similar ao português. Paguei muitos micos por acreditar nessa similaridade. Depois dessa etapa, mudamos para a Finlândia e foi aí que a minha confiança pessoal sumiu. O finlandês é um idioma com uma lógica totalmente diferente. Todas as palavras, sem exceção, mudam dependendo do que você quer dizer. Outra grande dificuldade são as vogais e consoantes duplas, para quem está aprendendo, elas são quase imperceptíveis e podem causar uma confusão terrível. Por exemplo: Mato (minhoca) eMatto (tapete). Já disse: Que tapete bonito e entenderam que minhoca bonita.” Sandra Kautto, natural de Manaus, vive na Finlândia há três anos.

Beijo e até a próxima!

Vanessa

 
 
Vanessa Bueno é jornalista e expatriada. Mora na Alemanha há um ano e escreve sobre a vida Do lado de cá, ou seja, de fora do Brasil. A ideia é gerar debates sobre as diversas situações que permeiam a vida de brasileiros mundo afora. Falaremos por aqui, por exemplo, de trabalho no exterior, dificuldades com a língua, diferenças à mesa, criação dos filhos, e tudo o mais que surgir, sempre com a participação especial de nossos leitores.

 

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